O Restaurante ChefVivi

O Restaurante

O Jardim

Ao chegar no restaurante ChefVivi, pela rua Girassol, encontro um jardim na calçada: a disposição dos vasos de flores, frutos e ramos verdes provocam a sensação de vitalidade no ambiente e criam uma proximidade com a natureza pela diversidade de cores e espécies de flores e folhas. O volume do jardim é reforçado por um claro-escuro da faixada do restaurante, esta sem ornamentos, que adquire um aspecto plano. Eu sei que a chef Viviane Gonçalves desvela-se no cultivo do seu jardim para conferir às flores uma vitalidade que desperte os nossos sentidos. A dimensão rítmica dos arranjos dos vasos, dos arbustos, da árvore, junto com as primeiras mesas que, agora aos meus olhos se fazem notar, aumenta a impressão de variedade e viço das flores.  Eu sou de São Paulo, sei bem como sentimos falta do contato com a natureza, com o ambiente verde, colorido, que encontramos somente nessas pequenas ilhas que criamos para sobreviver à uma cidade imensa e bruta. Pouco a pouco noto a faixada vinho escuro, as janelas com grades pretas, as mesas de madeira na calçada, uma terraza existe em meio a imensa malha urbana. Tenho a sensação de que ali irei respirar, relaxar e comer a comida da autora chef Viviane Gonçalves.

A Cozinha

As escolhas alimentares expressam aspectos ecológicos e éticos. Como passei a frequentar o restaurante ChefVivi, compartilho a luta da chef que é em prol da felicidade e da saúde diante do que comemos. Essa luta requer um exercício diário e contínuo, em defender a comida e a alimentação. O quê isso significa? Praticamente tudo o que comemos hoje não é comida – a indústria alimentar produz mercadorias que se assemelham com comida, mas não são -, e o modo como consumimos o alimento parece também não ser realmente “comer”. Comer é uma prática cultural, essa atividade humana expressa toda a complexidade de um determinado lugar, de um tempo, das práticas sociais, políticas e econômicas. Hoje, comer, está nas mãos de uma complexa rede que envolve a indústria alimentícia e os marqueteiros da alimentação. As doenças crônicas que agora matam a maioria de nós começaram com a industrialização da nossa comida.

Frequentar o ChefVivi passou a ser para mim, além de me deliciar com os pratos, sobremesas e vinhos naturais servidos ali, uma luta compartilhada com a chef Vivi em resgatar os sentidos do prazer, da comunidade, da família e da espiritualidade contidos na comida e suas relações com o mundo natural e com a expressão da nossa identidade. A maioria das ações concretas da chef, para fugir e questionar a indústria de alimentos e sua economia inescrupulosa, se dão no seu pioneirismo em apoiar o ressurgimento dos mercados de produtor, do surgimento do movimento orgânico e do renascimento da agricultura local. Nesse pequeno e paradoxalmente monumental restaurante, acreditamos que quanto mais pessoas estiverem inspiradas a colocar na boca um tipo diferente de alimento, mais comum e acessível ele se tornará.

Este site é um manifesto meu e da chef Vivi, para que você se una ao movimento que está renovando o sistema alimentício em nome da saúde no sentido mais amplo. É um convite para voltar à terra e ao cultivo de todos os alimentos. O que comemos, agora, tem consequências reais para a nossa saúde e a saúde da terra, que estão interligadas. A Carta da Terra, elaborada por intelectuais e ativistas do mundo inteiro, em seu preâmbulo, nos clama assumir a responsabilidade compartilhada pelo nosso amado planeta terra “… Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.”[1]

[1] Carta da Terra.

O Salão

Entro no restaurante pela porta retangular e preta, elegante e convidativa. Dois elementos do espaço saltam aos meus olhos, e pelo imediatismo das impressões dos meus sentidos visuais, elejo como principais, o vidro transparente que separa a cozinha do salão e o imenso buffet branco ao longo da parede do lado esquerdo. Ambos conferem uma paradoxal impressão de monumentalidade no espaço reduzido do restaurante. Para o ethos iluminista que informou em grande medida a arte e a arquitetura modernas, a transparência era um índice de verdade, despojamento, honestidade e pureza. Estamos falando de uma postura ética adotada pela chef Viviane Gonçalves, que elege tanto a transparência do sujeito em relação à natureza – haja visto que a chef está empenhada em acompanhar toda a cadeia da produção dos insumos, proteínas e bebidas que serve no restaurante -, quanto à transparência de um sujeito em relação ao outro, nos modos pelos quais a chef lida com a sua equipe e com os seus clientes. Esses conceitos estão expressos no espaço do restaurante, mediados pela transparência dos materiais de construção (vidro, espelhos) e dos utensílios (taças de cristal, decanter), e pela ideia de penetração espacial, segundo a qual um contínuo fluxo de ar, de luz e de movimentos perspectivos – gerados pelo imenso buffet branco, as mesas pretas, as cadeiras de madeira, o vidro transparente -, garante a sensação de indivisibilidade e de espaço contínuo.